Move That Jukebox!


IT’S NOT Just a fest by movethatjukebox
março 22, 2009, 3:20 pm
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Para os que queriam ver o Radiohead bem de perto, o dia começou cedo. Os primeiros a chegarem na Apoteose já estavam ali desde as 7 ou 8 da manhã, simplesmente para não ficarem como retardatários na fila que, mais tarde, dobraria esquinas e atravessaria ruas.

Os portões de entrada só foram abertos às 17:20, com mais de uma hora de atraso. Ali começava um processo de seleção natural onde os mais aptos sobreviveram – ou, neste caso, onde os mais rápidos conseguiriam os melhores lugares. A ordem estabelecida pela tradicional fila indiana foi ignorada, e aí a confusão já havia começado por completo.

Passados os guichês e atravessada a rua que cortava a Apoteose – e que não havia sido interditada sei lá porquê –, a Fórmula Indie, como foi apelidada pelos mais bem humorados, chegava a um fim. A maratona de shows, no entanto, ainda demoraria para começar.

A volta do Los Hermanos

los-hermanos

Algum tempo depois e sem atraso, entrava no palco o Los Hermanos, já sem pisar nos palcos desde abril 2007. Sem ‘Anna Júlia’ (ufa!), o show foi carregado de gritos de fãs que, por vezes, chegavam a abafar as vozes de Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante, enquanto outros pediam “AUMENTA, AUMENTA!”.

Tão eufórico quanto o público estava Rodrigo Barba que, mesmo escondido no fundo do palco atrás de sua bateria, chamava a atenção pela energia que descarregava no instrumento. Bruno Medina, que rebolava por trás de seus teclados com discrição, também se mostrava animado voltando a ser músico, depois de passar os últimos meses dedicando-se ao Jornalismo e ao seu filho, que nasceu no início do ano passado. Camelo interagia frequentemente com Amarante, mas este, por sua vez – e se meu julgamento não erra -, distribuía sorrisos mais largos e verdadeiros em sua penúltima passagem pelos palcos cariocas, com o Little Joy.

O setlist foi aprovado pelo público, como se pôde notar pelas salvas que apareciam no início de cada música. A banda passou por faixas de seus três últimos álbuns, eliminando o homônimo de 1999 dos planos, mesmo havendo tantos pedidos por ‘Pierrot’. ‘Cher Antoine’ pegou todo mundo de surpresa ao ser anunciada por Rodrigo, que canta a única – e pouco freqüente – composição em língua estrangeira da banda. A performance terminou com ‘A Flor’, que deu seqüência à genial ‘Cadê Teu Suin?’ com seus versos emendados. O bis, muito pedido, não veio, mas as 18 músicas (!) do show já foram mais que suficientes para matar a saudade dos Hermanos.

Kraftwerk e seu novo integrante

kraft

Em seguida, o Kraftwerk (ovelha negra do Just a Fest aos olhos de muitos) tomou conta do palco com a ajuda do novato Stefan Pfaffe, substituto permanente de Florian Schneider. Aliás, pode-se dizer que, em pleno século XXI, Stefan é a única novidade que os alemães tiveram para oferecer ao público. Se, nos anos 70, Kraftwerk era sinônimo de “maior revolução da música” com o uso inédito (?) de sintetizadores, nos dias atuais o quarteto representa uma página da história que persiste em ser virada.

A verdade é que, ultrapassados ou não, o quarteto que subiu ao palco naquela noite viu muita gente chacoalhar ao som de suas melhores músicas, ‘The Man-Machine’, ‘Numbers’ e ‘Computer World’, tocadas logo no início da apresentação.

Enquanto uns dançavam com a música eletrônica de raiz, outros ficavam estáticos, boquiabertos, com a qualidade visual do show. Fazendo tudo ali, na hora, a Estação de Energia – como seria chamada em nossa língua – misturava cores e imagens, resgatando o material que já era exibido em seus telões desde antes do nascimento da maioria dos presentes. ‘The Robots’ deu início a um murmurinho sem fim de reclamações dos mais rabugentos. Isso porque, nela, os integrantes da banda são substituídos por manequins-robôs que imitam suas respectivas fisionomias e são providos de movimento – “ótimo, paguei pra ver boneco”, alguns diziam.

Depois de cantar e sintetizar sua voz em alemão, inglês e francês, Ralf Hütter – acompanhado de seus colegas – trocou sua jaqueta escura por um colã preto com linhas verdes cintilantes, que embelezaram a apresentação ainda mais. Os trajes foram usados em apenas duas músicas: ‘Aerodynamik’ e ‘Music Non Stop’ que, com chave de ouro, concluíram o espetáculo.

O único cumprimento ao público só veio depois, com um gesto corporal, quando os membros fizeram uma breve reverência à platéia. As palmas que vieram em seguida mais pediam pelo Radiohead do que saudavam os semi-inertes alemães.

Finalmente, Radiohead

radiohead2

Os vinte e tantos mil pagantes esperavam pelo show do Radiohead, um evento que ficaria marcado na história de shows internacionais no país. Eram pessoas de todas as idades (vi crianças que tinham, no máximo, 13 anos e, em contraste, o bem-vivido Caetano Veloso, quase aos 70) e de todas as regiões do Brasil. Alguns, inclusive, vinham até de outros países: Ora ou outra se ouvia diálogos em inglês, espanhol e até em francês.

Enquanto os preparativos finais para o grande show eram terminados, os telões pediam para os navegantes não utilizarem flashes ou dessem moshes, mas poucos pareceram dar atenção ao aviso.

Quase onze horas: Thom Yorke, que já havia dado as caras no cantinho do palco durante o primeiro show, dessa vez aparece para ficar. Ed O’Brien, os irmãos Greenwood e Phil Selway estão logo atrás. Os gritos que os acompanham são de pessoas que, finalmente, começaram a entender que algo grandioso e inesquecível estava pra acontecer. A banda se anunciou em português, com Yorke como porta-voz: “Nós somos Radiohead”.

A sequência foi dada pela animada ’15 Step’, que também aber o último álbum do grupo, In Rainbows, de 2007. Thom dança com seu estilo único, totally weird, sem mover os pés. O público o acompanha nos vocais e Colin Greenwood pula como se não acreditasse na interação da platéia, o que se repete durante todo o show.

No fundo do palco, o telão mostra as imagens de cinco câmera diferentes, cada uma focada em um músico. No teto, cilindros luminosos de cumprimentos diferentes (alguns chegam a alcançar o chão) espalhados pelo palco completam a estética caríssima da apresentação.

In Rainbows vai conquistando seu espaço durante o set, e acaba encaixando todas as suas 10 faixas na apresentação, sem deixar a melancolia de ‘All I Need’, ‘Nude’, ‘Videotape’ e ‘House of Cards’ de lado.

O clássico Ok Computer ganhou representantes ilustres, cotadas como as mais esperadas da noite. A primeira delas foi ‘Airbag’, que veio logo depois de ’15 Step’, recebida aos prantos pelos mais fanáticos e cantada em coro por toda a praça. ‘Karma Police’ também entrou para os momentos iniciais do set e, mais uma vez, a iluminação em tons de azul se tornou coadjuvante por trás dos backing vocals de Ed, do violão de Thom e do belo refrão da música. ‘No Surprises’ também aparece para contar sua história, um outro megahit comemoradíssimo. Sem peso nas cordas ou na bateria, ela ajudou a estruturar o bloco das melodias lentas e penetrantes (ui) que ficou ainda mais sólido com ‘Street Spirit (Fade Out)’ e ‘How To Disappear Completely’. Mesmo com tantos sucessos, o maior destaque do Ok Computer foi mesmo de ‘Paranoid Android’, praticamente um hino britânico. De repente, a Apoteose se viu pulando ao som do solo mais pesado da apresentação e, de uma hora para outra, acompanhando a melodia assombrosa que veio em seguida.

Antes mesmo do primeiro bis, o show já parecia completo. Abrindo uma incógnita para todos os presentes, Johnny Greenwood misturou à ‘The National Anthem’ samples de uma narração em português, que admito não saber do que exatamente se tratava. Somada à combinação de luzes mais espalhafatosa do show, a música virou candidata forte a uma das mais satisfatórias da apresentação. Isso, claro, porque ainda não sabíamos o que viria pela frente.

‘Idioteque’ e ‘Everything In It’s Right Place’ ganharam versões mais aceleradas e dançantes ao vivo, levando o Kid A direto para as pistas de dança. Surpreendentes, além dos ótimos remixes, foram os tubos luminosos transformando-se, de repente, em um grande telão que exibia a letra de ‘Everything’enquanto Thom a cantava.

Na reta final do show, também vieram ‘Just’, uma das melhores do The Bends, ‘Reckoner’ e ‘You And Whose Army?’, que Thom cantou “por todas as vezes que a América do Norte tentou foder com vocês” focando seu olho tonto na câmera de seu piano, única exibida no telão naquele momento – e, finalmente ‘Creep’, que vive uma eterna relação de amor de ódio com o público. Indiscutivelmente a música mais cantada e aplaudida dos espetáculo, ‘Creep’ botou rédeas curtas nos que a renegam e que, por fim, cederam a sua beleza.

Com muitos agradecimentos (em português mesmo), o Radiohead não fez promessas de voltar ao Brasil em breve, como manda a etiqueta. De qualquer forma, todo mundo reconhece que os apoteosenses e a galera que acompanha a banda hoje (22), na Chácara do Jockey, fizeram parte de um momento que fará história. Até o taxista que me levou pra casa reconheceu que “essa banda deve ser boa mesmo”. Pelo visto, ela é muito mais que boa.

Fotos por O Globo, João Paulo Lages e BgKcram.

Texto por Alex Correa

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18 Comentários so far
Deixe um comentário

Dia Memorável por tudo de bom e ruim (principalmente pela apresentação fodástica do Radiohead). Vamos ver se o raio cai no mesmo lugar mais de duas vezes… hehehe

Comentário por Filipe

Parabéns Alex pelo texto, me senti lá, rs

Thiago.

Comentário por Beirutando

foi perfeito! e eu fiquei boba vendo vídeo de “everything”, de onde eu estava não dava pra ver a letra nas luzes. foda demais!

Comentário por carol

Alguém tem o alinhamento completo e por ordem de Radiohead??
Quem me dera ter ido!

Comentário por spike

15 step
Airbag
There There
All I Need
Karma Police
Nude
Weird Fishes/Arpeggi
The National Anthem
The Gloaming
Faust Arp
No Surprises
Jigsaw Falling Into Place
Idioteque
I Might Be Wrong
Street Spirit (Fade Out)
Bodysnatchers
How To Disappear Completely

Encore 1
Videotape
Paranoid Android
House of Cards
Just
Everything In It’s Right Place

Encore 2
You And Whose Army?
Reckoner
Creep

Comentário por alex correa

Queria ter ido, só pra ver LH. Vou assistir daqui a pouco pela tv. :(

Comentário por Amanda Caroline

Só pelo Kraftwerk já teria valido tudo a pena (agora Tour de France não sai da minha cabeça). Com Radiohead então… foi MARAVILHOSO!

Comentário por Eduardo Azeredo

Foi perfeito. Melhor show que eu já fui. E cara, lá tinha gente de todas as idades mesmo, até bebê dentro do carrinho eu vi!

Comentário por Isabela

Rapaz, me diverti lendo. Eu corri para caralho quando aquele portão abriu. Fiquei na grade, bem no meio. Foi absurdo aquele show. Absurdo. Até agora estou sem voz e minhas pernas doem.
show para contar aos netos.
fato.

Comentário por Daniel Correa

de acordo com a entrevista do Radiohead que acabou de ser dada pelo Multishow, os “samples de narração em português” são, na verdade, rádios sintonizadas aleatoriamente e “sintetizadas” na hora.
Só o Radiohead mesmo.

Comentário por tata

Me desculpe, mas esse comentário de “ótimo, paguei pra ver boneco” só pode ter sido feito por um fã de Looser Manos de barba suja e chinelão… mesmo porque os robôs so apareceram no palco por cinco minutos em uma unica musica! só tendo muito pouco cultura musical pra falar uma asneira destas…. outro comentario infeliz é dizer que o Kraftwerk é uma página que persiste em ser virada. Garanto que se o próprio Thom Yorke estivesse lendo isso aqui colocaria a cabeça do autor à prêmio.

Comentário por Pedro

Rapaz ainda bem que tem muito material de como foi esse show aqui no Brasil, desde o repertório original até filmagens…muito bom mesmo..

Comentário por rafael d.

Pelo jeito os três shows foram melhores em São Paulo..

E odeio fãs xiitas, ao invés de curtir o que tá passando só pensam no que está por vir (ou já foi). A única e maior merda de festivais é esse bando de gente chata.

Comentário por marçal

Marçal disse tudo. Foi chato ver a falta de respeito de algumas pessoas, principalmente, com o Kraftwerk e toda sua história. Gente que mal tinha idéia da importância dos caras e que nem sabe do respeito que o próprio Radiohead tem pelos caras. Mas teve gente admirando isso é legal.

Comentário por Eduardo Azeredo

Vocês do MTJ escrevem muito bem, com bastante informação e humor! Parabéns Alex:)
Queria muuuito ter ido, fiquei vendo pela tv o de SP, mas muito triste… :(

Comentário por Monique

sinceramente, não goso do In Rainbows. Achei a primeira parte do show muito chata. As músicas não ajudam pq não mudam os riffs, não evoluem. Mas dps valeu a pena!

Comentário por paula

Alex,
o sample em português que Johnny colocou em National Anthem e em outras partes do show nada mais era do que uma rádio local ao vivo, acho que era a Band News, pelo menos em São Paulo, acho q foi isso.

Comentário por Rafael

Cher Antoine só não foi surpresa no show dos LH pra quem ficou em casa como eu: o UOL ‘vazou’ o setlist antes da apresentação.

Comentário por Julio




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