Move That Jukebox!


Entrevista: Ecos Falsos by Neto
outubro 20, 2008, 5:57 pm
Filed under: Outros | Tags:

Ecos Falsos – formada em São Paulo, difundida por [quase] todo o país. Foi no ano passado que a banda lançou seu primeiro álbum, Descartável Longa Vida que, segundo Gustavo Martins (guitarra e voz), é um álbum muito pop e que “ainda tem que ser ouvido por muita gente”. Concordo plenamente – exceto com a primeira afirmação, que se mostra contraditória assim que fazemos uma visita ao MySpace. De qualquer forma, os fãs do grupo preferem inclui-los em suas playlists de música alternativa nacional ou, mais resumidamente, indie rock.

Daniel Akashi, Davi Rodriguez e Felipe Daros dão fim à formação da banda que, no início da carreira, contava com mais um membro. A saída deste foi conturbada, e fez com que o poder de três guitarras no mesmo palco chegasse ao fim, ocasionando em adaptações ao vivo das músicas que haviam sido gravadas em estúdio com quatro instrumentos de corda.

Ambicioso, o quarteto sustenta o sonho de viver só da arte que fazem, que certamente estaria mais parte, não fosse a língua afiada que cada um tem. Enquanto aquecíamos para dar início a entrevista, Gustavo reconheceu que seu “mau-hábito de falar demais em entrevistas e arrumar confusão” mata, aos poucos, a carreira que podia ter no mainstream – “não que eu ache que teremos uma carreira no mainstream”, se adianta. É claro que eu adoro publicar uma bomba (e quem não gosta?), e é claro que tentei alongar ainda mais a língua do rapaz, numa tentativa frustrada. Bem ou mal, prolongamos nossa fama de bons moços e estabelecemos laços amigáveis com mais uma banda, o que no fundo é o que importa.

Recentemente, o hábito pouco conveniente de Gustavo fez com que surgisse uma grande reprovação da parte de alguns produtores a respeito de uma declaração dada à Rolling Stone pelo músico.

Com ou sem declarações prejudiciais à integridade de qualquer pessoa, a entrevista ficou bem divertida. Para ler, é só rolar a página.

MTJ: No início do clipe de Nada Não, você dá um recado dizendo que deve-se desistir do rock enquanto há tempo. Qual é o motivo disso?

Gustavo: Na verdade, a idéia é fazer as pessoas pensarem, tomarem um susto mesmo. De vez em quando, a gente gosta de causar um estranhamento, e achamos que botar isso no começo do clipe pareceu uma maneira interessante. O povo recebe informação de maneira tão acrítica ultimamente, até mesmo no imprensa que, para você ter uma idéia, é o primeiro que me pergunta isso (risos). É uma espécie de conselho paradoxal, já que a gente não desistiu do rock, mas é também uma ironia com toda dificuldade que existe em ter uma banda, fazer as coisas por conta própria, do seu jeito, em um país que, convenhamos, não é muito fã de rock (pelo menos não do tipo que achamos interessante). Então fica como um presságio: Se você não está a fim de sofrer, desista logo do rock, porque depois vicia e não tem volta (risos).

Nada Não

MTJ: Depois de toda aquela confusão que rendeu a piada sobre o Acre, você pretende parar de fazer humor com os destinos da banda?

Gustavo: (Risos). Primeiro, quero deixar bem claro que nem eu, nem ninguém da banda fizemos piada com o Acre – foi o povo da nossa comunidade, que é muito ativo e brincalhão, que começou uma piada. Como eles fazem com qualquer cidade, aliás. Por essas maravilhas da inclusão digital, a coisa tomou uma proporção bizarra, a ponto de ter metaleiros nos jurando de morte na nossa própria comunidade. Mas no fim foi tudo ótimo lá, a organização foi super gentil, o público aplaudiu e comprou um monte de coisa, fomos muito bem tratados e gostamos muito de Rio Branco. Agora, respondendo a sua pergunta, eu já evito fazer piadas desde que chamei Natal de João Pessoa sem querer, em 2006 (risos). Foi o suficiente para me jogarem uma lata de cerveja (risos).

MTJ: E, com o Acre, vocês estão cada vez mais perto de ter passado por todos os Estados do país. Quais faltam?

Gustavo: Tem Tocantins, Ceará e Pará, que têm gente interessada e de 2009 não devem passar. Daí vão ficar faltando os muitos difíceis: Espírito Santo, Maranhão, Amapá, Piauí e Roraima, que eu nem sei com quem devo falar pra tocar (se você que está lendo conhece alguém, fale pra gente!)

MTJ: Com tantos shows por aí, o saldo do Ecos deve estar positivo. Você pode contar pra gente quanto a banda está rendendo?

Gustavo: (Risos). Não posso, segredo comercial. Eu que controlo o fluxo de caixa da banda, e posso te dizer que está no azul, em grande parte por um milagre do Bom Amigo Inibié que eu não posso contar em muitos detalhes por impedimento jurídico (risos). Dá uma graninha, mas ainda não é o suficiente pra nos sustentar sem empregos paralelos. A gente gasta o que sobra com brinquedinhos novas, guitarra, samplers, pedais e coisas do gênero. E viajar pelo Brasil é muito caro, também, raramente a gente ganha nessas turnês pelo Norte e Nordeste, é mais uma luta pra empatar os gastos e divulgar o disco no processo. O bom é que viajamos o país todo de graça!

MTJ: Com certeza isso já é uma grande vantagem. Falando nisso, quais são seus empregos paralelos?

Gustavo: Eu sou jornalista, o Daniel é designer, o Felipe é publicitário/designer e o Davi trabalha com vídeos.

MTJ: E as economias para gravar mais material já começaram?

Gustavo: Ah já. Não queremos que demore tanto para gravar como o primeiro, que foi no esquema faz uns shows, gasta gravando, faz mais shows, gasta de novo… A gente fez uma reserva pra poder se internar no estúdio.

MTJ: E essa internação tem data pra acontecer?

Gustavo: Bom, a gente vai se reunir amanhã pra fechar um cronograma, mas a intenção é passar janeiro e fevereiro gravando o disco. E, se der, já fazer umas prés esse ano ainda, no estúdio-caverna do Davi.

MTJ: Por ora, vocês estão cogitando a participação de outros músicos nesse próximo trabalho?

Gustavo: Não, não temos nada em mente. Ao mesmo tempo, tem uma música que talvez precise de um coral gigante, então existe a possibilidade de chamarmos todas as pessoas que conhecemos (risos). Pode ser que role também, no primeiro disco tiveram três participações e foi muito legal, mas por incrível que pareça foi coincidência, cada uma rolou por um motivo.

MTJ: O Tom Zé, que participou, foi convidado por ser fã de vocês. E como foi com a Fernanda Takai e com o Sérgio Serra?

Gustavo: O caso da Fernanda foi que a música era um dueto, e precisávamos de uma voz feminina “tipo Fernanda Takai”. Só que a gente não conhecia ninguém disponível no perfil, então resolvemos mandar email pra ela mesmo (risos). Ela, que é absurdamente gentil, pediu pra ver a letra e topou, gravou no estúdio deles em Belo Horizonte mesmo. já o Sérgio Serra, guitarrista do Ultraje que toca em “Isso Me Cansa”, tinha visto um show nosso e participado de um tributo ao Ultraje que a gente fez com o Rock Rocket. Ele pediu pra tocar uma música nossa nesse show, e foi essa daí. Ficou tão bom que a gente resolveu gravar com ele.

MTJ: Ainda sobre esse futuro álbum, vocês já tem composições prontas, semi-prontas ou quase semi-prontas?

Gustavo: Temos em todos esses estados (risos). Eu diria que umas duas prontas, seis semi-prontas e umas trinta quase semi-prontas. Ainda temos um bom trabalho pela frente, eu diria. Mas tá ficando legal, bem mais… irreverente musicalmente, eu diria. Eu diria, eu diria…

MTJ: Ahn… Consegue definir “mais irreverente musicalmente”?

Gustavo: Droga, eu odiava quando lia esses termos vagos nas entrevistas, mas eles são tão bons pra explicar (risos). Digamos que não é mais uma coisa tão baseada em riff de guitarra como foi o primeiro disco. Tem mais experimentação com tempo, com outros instrumentos, com mudanças de andamento dentro da música. É meio clichê dizer isso, mas acho que estamos compondo coisas mais para conjunto mesmo, todo mundo junto. Antes um chegava com uma música pronta e os outros tinham que tentar arranjar seu lugar na estrutura. Além do mais, nesse nosso primeiro disco são músicas compostas para três guitarras, que tivemos que adaptar ao vivo, porque saiu um integrante durante a gravação (pra ver como foi demorada (risos). Mas é bizarro porque, ao mesmo tempo em que está ficando mais complexo, eu tenho composto coisas cada vez mais simples, até pra dar espaço pra todo mundo criar em cima também… Coisas bem cantáveis. Não estou ajudando muito com essa explicação, estou?

MTJ: Por “Coisas bem cantáveis”, entendi que o Ecos está experimentando algo de pop. Errei?

Gustavo: Não, não, acho que é certo dizer isso. Mas não quero criar falsas expectativas nas pessoas, porque sem dúvida vai acabar saindo com o “twist” Ecos Falsos, ou seja, vai sair tudo meio estranho (risos). Mas se for um estranho que as pessoas cantem junto, acho que teremos chegado ao nosso objetivo.

MTJ: É, o Descartável Longa Vida não é exatamente normal.

Gustavo: (risos). Pois é, já ouvi várias opiniões sobre isso. Pra mim ele é super pop (risos), mas acho que ainda falta essa questão do “cantabile”, como dizem os italianos. A gente se concentrou muito nas letras e nas guitarras. Apesar de que tem coisas como “Nada Não”, que me parecem super pops, sei lá… (risos). As vezes eu acho que o problema é que a gente quer que o ouvinte preste atenção nas letras, e isso não é exatamente pop. Pop é você falar uma coisa imbecil tipo “under my umbrella”, mas com uma melodia muito boa.

MTJ: (Risos). Nunca tinha pensado dessa forma…

Gustavo: É uma teoria, (risos). Enfim, é uma discussão quase técnica, mas mais no sentido de que você tem que pesar o que tem mais importância numa música, letra, melodia, ritmo… tipo Marcelo D2, tá cantando a mesma coisa praticamente desde 1994: “eu sou o D2, eu tenho o microfone, agora eu vou falar, você sabe meu nome”. Acho muito pop. Inclusive a gente pensou em fazer um rap estilo D2 no disco, mas acho que a idéia foi descartada (risos).

MTJ: Esse negócio de hip hop com indie está na moda. Poderia render…

Gustavo: (Risos). É, vamos chamar o Pharrell [Williams, do N*E*R*D] pra participar, ele participa de tudo mesmo… Vou ligar pro Rent a Rapper e pedir um daqueles gordos, “Ecos Falsos feat. Daddy Yo-Yo”, aí o cara entra e faz uma rima merda qualquer no meio. Se eu morasse nos EUA eu tinha patenteado o Rent a Rapper, ia ficar rico.

MTJ: Poderia dar certo. Passando pra próxima pergunta… O Paulo Terron, que fez um ótimo texto sobre vocês, incluiu o Ecos Falsos na “nova geração do rock autoral brasileiro”. O Vanguart, que supostamente estaria nessa tal geração, embarcou em sua primeira mini-turnê européia há uns dias. Dá pra ter uma idéia de quando chegará a vez do Ecos?

Gustavo: Você diz o texto do nosso release?

MTJ: Esse mesmo!

Gustavo: (Risos). Vou falar pra ele… Olha, eu fiquei muito contente pelo Vanguart, acho que os caras merecem mesmo, e conseguiram isso com o apoio da Prefeitura de Cuiabá e da própria produtora deles, a Barravento, que já tem um trabalho de uns anos com essas feiras de música e tal. Então é uma questão de talento + oportunidade + apoio, e eu ainda não sei dizer quando esses três fatores conjuminarão para nós (risos). Mas eu diria que, bem ao estilo Ecos Falsos, estamos planejando uma turnê internacional também. Não vou ficar cantando de galo porque pode muito bem não dar em nada, mas seria um lance totalmente insano, DIY [“do it yourself”, ou “faça você mesmo”], milhares de quilômetros de van, algo que provavelmente vai custar os empregos e a vida pessoal de todo mundo (risos). Mas se der certo, vai ser tipo fora do comum. Estilo Ecos Falsos (risos). Pensando bem, pra quem já foi do Acre a São Leopoldo [Rio Grande do Sul], uma turnê internacional não é tão insana.

MTJ: (Risos). Não muito…

Gustavo: É que a gente, por bem e por mal, tem essa coisa de fazer tudo sozinho. Somos super-controladores (risos). Então só mês passado que finalmente concordamos em ter um produtor. Até hoje fui eu quem marcou todos os shows, itinerários, turnês, entrevistas… O Daniel que fez todas as capas, o Davi que fez os clipes, e o Felipe que atraiu as garotas, mas no futuro teremos tudo isso terceirizado. Acho que até a música, vamos ser como o Bloc Party.

MTJ: Cara, terminamos por aqui. Alguma coisa que você jamais teve a oportunidade de falar mas que adoraria comentar?

Gustavo: Deixe-me ver… Bom, vamos lançar um novo clipe dia 7 de novembro, com um show no Outs, com o Rockz. E começamos a colocar teasers no YouTube, é o clipe de Bolero Matador, que envolve dança, multimídia, traição e cenas chocantes de liberação sexual. Que mais… Gostaria de deixar registrado que estou muito feliz de dar entrevista para o MTJ, porque em geral os indies não levam a gente a sério por causa desse papo de boyband (risos). A gente é super sério, super indie, eu ouvia Vampire Weekend na demo.

MTJ: (Risos). Conquistaram os indies agora.

Gustavo: Torçamos. Eu acho que esse disco ainda merece ser ouvido por muita gente. Mas enfim, o Sílvio Santos também acha que todo mundo deveria assistir à novela da filha dele. Podemos estar os dois completamente errados.

Por Alex Correa

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10 Comentários so far
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Pingback por MTJ Magazine #3 « Move That Jukebox!

Acho que foi a melhor entrevista que eu já ali até hoje deles.

Comentário por Caks

A melhor entrevista do MTJ ;)

Comentário por Lucas

hahahahahahaha
eu só sou sentimental quando eu me fodo!
viva ecos falsos ((:

(devo dizer que a demo dessa música é muito mais legal que a versão final)

Comentário por fulano

Pra fazer shows aqui em Macapá (que eu tô esperando, desde já!), tem tipo uma empresa, que organiza eventos de música, inclusive vai ter um agora dias 5 e 6 de Dezembro, e a Presença de Ecos Falsos ia enriquecer bastante a lista de bandas do Festival. O nome do pessoal é Coletivo Palafita, pode entrar em contato com eles no Blog (http://coletivopalafita.blogspot.com/), onde tem e-mail para contato e o link da comunidade dos mesmos do orkut, e também através do profile de uma amiga minha que faz parte da equipe (http://www.orkut.com/Main#Profile.aspx?uid=3848170061392092189). Se vocês puderem passar, ou então dar um jeito para que a equipe de Ecos Falsos veja os contatos, seria de grande ajuda! Ecos Falsos aqui em Macapá? \o/ hehehe

Comentário por Carlos Renan

cara. eles são tão bacanas. :)

Comentário por thaís

E só pra complementar: o presidente da Abrafin (ou qualquer membro da associação) tem total autonomia pra decidir se uma banda deve ou não tocar nos seus festivais. Ou seja, se ele disser que a gente não vai tocar mais nos festivais dele, isso não é uma injustiça, de forma alguma – é uma decisão que ele pode tomar porque, afinal, o festival é produção dele. A frase completa dele, na verdade, foi “não tocam enquanto não lançarem disco novo”. Então foi uma briguinha nossa sim, mas não é nada tão bombástico, sorry, ainda somos amigos, hahahah

Comentário por Gustavo Falso

(mal aí se eu estou mandando isso repetido, acho que o link estava barrando)

Agradeço novamente ao MTJB pela entrevista, mas preciso fazer uma correção àquele quarto parágrafo: minha participação na matéria da Rolling Stone não foi “sustentando a teoria da grande ‘panelinha’ que existe dentro da associação”, eu falei sobre financiamento público de festivais. Quem falou sobre panelinha foram integrantes do Cabaret e Terminal Guadalupe. Quanto ao problema do presidente da Abrafin, nós de fato tivemos uma discussão depois da matéria, mas tanto eu quanto ele já nos arrependemos de algumas coisas que falamos, hahaha. Mais detalhes podem ser ouvidos no último Podcast Qualquer Coisa dessa semana (tem no blog do Paulo Terron no iG)

Em todo caso, MUITO obrigado!

Comentário por Gustavo Falso

entrevista bacana mesmo! e espero que a idéia da turnê internacional dê certo.

E só sei de uma coisa: essas idéias de associações são exclusivas por natureza. Nunca gostei muito delas.

Até!

Comentário por geeknerdnanico

Acho que foi a melhor entrevista que eu já ali até hoje deles. [2]

pra completar, ainda fiquei sabendo que o gustavo tava com joão pessoa na cabeça, yey! hahaha

Comentário por Andrezza Melo




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