Move That Jukebox!


Entrevista: Final Fantasy by marçal
setembro 23, 2008, 6:20 pm
Filed under: Entrevistas, Final Fantasy | Tags: , ,

Não, não entrevistei um jogo de videogame. Este Final Fantasy é um projeto do músico Owen Pallet. Talvez pouquíssima gente aqui saiba quem o cara é, então vou falar um pouco sobre seus trabalhos para entenderem melhor. Ele simplesmente compôs os arranjos de cordas para os discos de Arcade Fire e Beirut e regeu a orquestra que tocou no disco de estréia do The Last Shadow Puppets. Pouca coisa, não?

Owen também é caridoso, visto que doou todos os lucros de sua música ‘Adventure.exe’ para a ONG ‘Médecins Sans Frontiéres’, além de repassar o dinheiro ganho com o ‘Polaris Music Prize’, um dos principais prêmios do Canadá, à bandas que ele gosta e que possuem necessidades financeiras. Porém ele não gosta de falar sobre estes assuntos. Na entrevista, feita por e-mail, Pallett se esquivou de perguntas sobre eles, com respostas irônicas, falando sobre outras coisas.

Na última quinta-feira (18), ele se apresentou juntamente com a francesa Colleen no SESC Santana (SP), onde conversamos um pouco e fiquei sabendo o porquê de algumas respostas sem concordância com a pergunta. Owen não quer utilizar suas doações, seus trabalhos com bandas famosas e o fato de ser homossexual como marketing pessoal. Para ele, o que importa é sua música e o modo como ela é produzida e tocada.

E o modo como ela é tocada é um tanto peculiar. Ele se apresenta com alguns pedais, nos quais são gravados samples do que está tocando. Assim ele pode tocar por cima de um trecho que acabou de gravar, o que dá a impressão de que há vários violinos, enquanto é somente Pallet que está lá. Na apresentação em São Paulo, ele foi simpático, chamando todos para assistir de cima do palco. Isso mesmo, grande parte da platéia se sentou aos seus pés e o viu tocar como quem participava de um luau entre amigos.

Sem mais delongas, vamos à entrevista. Para baixar os dois àlbuns e os EPs do Final Fantasy, é só ir até a comunidade de downloads.

Suas músicas fazem uma mistura do clássico com alguns outros estilos musicais. Quais são suas influências em cada gênero?

Eu realmente não sei responder essa pergunta. Meu violino significa que faço música clássica. Meu computador significa que faço música eletrônica. Meus amplificadores de guitarra significam que faço rock. Eu não sei. Acho que não faço coisa alguma.

Certa vez você disse que sua sexualidade influencia na sua música. De que modo?

Considere que todas as canções falam sobre o maravilhoso tema de “Smash the State” (“quebrar” o Estado). “Smash The State” pelo [grupo] Naked Agression, que faz uma proclamação pública de ódio. “Smash The Stata” pelo D.O.A., que pede especificamente para o ouvinte matar alguns políticos e lista as coisas pelas quais “o estuprador fascista” é responsável… Tanques, forcas… É um hino convincente, cômico e anarquista. Ou “The State Was Bad”, do US Maple, na qual o cantor Al Johnson fala muito especificamente sobre um “estado quebrado”, onde ele olhava para as luzes e todas as mulheres estavam casadas e todos os homens se pareciam com o pai dele. Para mim, essas três músicas formam um tripé da quebra do Estado. A primeira é uma fúria com uma ambigüidade desconhecida. A segunda é um convite para agir. A terceira é um marco pós-morte para um governo que já foi quebrado. Três canções sobre a quebra do Estado, mas com motivações políticas e resultados muito diferentes.

A música do Naked Agression é sobre a quebra do Estado, mas a fúria juvenil sugere uma convicção temporária do cantor. Eu acho que eles venderam alguns discos e ele acabou comprando uma casa, aí parou de pensar em quebrar o Estado.

A música do D.O.A. é sobre matar políticos, o que é uma coisa bem interessante de se escrever. Eles pareciam estar reagindo à Guerra das Ilhas Malvinas ou algo assim, não sei. Bem, a ironia de músicas politicas que tratam de coisas específicas é que Reagan está morto, Trudeau está morto, Thatcher está fora (mas seu espectro continua aqui)…mesmo assim a canção exibe sua cabeça em defesa. Nenhum estado foi massacrado, sabe. Essas pessoas não foram para a guilhotina…de fato, ambos Trudeau e Reagan viraram nomes de aeroportos. D.O.A. pode não ter seguido o seu lema “Palavras sem ações = nada”, mas tudo bem. Eles ainda se esforçam para serem anarquistas.

Assim como para US Maple, a melhor banda de todos os tempos, sua versão de “The State Is Bad” é maravilhosa. Veja bem, esta é uma verdadeira música anarquista. Eles pegaram a idéia ambígua de “Estado” e aplicaram no processo de crescimento como um adolescente. Pode ser, talvez? Essa música aponta que qualquer desejo de “esmagar o Estado” é sem sentido, que qualquer um pode muito bem existir fora dele. Essa é a beleza da anarquia.

O que eu realmente estou querendo dizer é: eu posso não cantar sobre pênis, mas minhas músicas soarão como pênis, entendeu?

O que seus trabalhos com Arcade Fire, Beirut e The Last Shadow Puppets acrescentaram ao Final Fantasy e à sua vida pessoal?

Falando do “Estado”, eu não acredito que você brasileiros votam por mensagens de texto! O que acontece com as pessoas que não têm celular? É muito estranho e pós-moderno, amei. Vou votar em alguém antes de ir embora.

Owen Pallett em São Paulo. Sim, estávamos sentados no palco.

Você nomeou seu projeto como Final Fantasy por ser um fã do game?

Eu não jogo Final Fantasy desde os meus 17 anos, mas eu me lembro que era longo e não fazia sentido algum.

A caridade é algo presente em sua carreira, e isto não se vê muito entre artistas pouco conhecidos. Por que este desejo de estar sempre ajudando quem precisa?

Eu não sei sobre o que você está falando. Eu gosto de música, então eu dou dinheiro aos músicos que eu gosto para que eles possam gravar discos. Eu não estou ajudando os necessitados.

Ainda no assunto dinheiro, qual a sua opinião sobre a guerra das gravadoras contra os downloads? Você é a favor da liberdade de compartilhar música pela Internet ou acha que cada um deve pagar pelo que quer ouvir?

Ah, é a mesma diferença entre ver um filme no cinema e ver em DVD. Eu gosto de CDs, eu gosto da capa e da parte de botá-lo no CD Player e tudo mais. Está bem se você quer pegar meu disco no iTunes, mas tenho certeza que você vai gostar muito mais se comprá-lo na loja de discos. Eu sou completamente a favor do download gratuito, da mesma forma que acho que as pessoas deveriam poder pagar por sexo. Mas será sexo, não será amor.

Existe algum músico ou compositor brasileiro que já tenha te influenciado?

Com certeza, dois dos meus álbuns preferidos são brasileiros. Recital Na Noite Barroco, da Maria Bethânia, e (estou com vergonha de admitir) Voz e Violão, do João Gilberto.

Seu terceiro álbum foi prometido para o meio deste ano e ainda não foi lançado. Quando sai?

Nunca. Decidi que não vou lançá-lo. Vou guardá-lo pra mim.

O que você conhece do trabalho da Colleen? Já tocou com ela antes?

Eu já toquei com ela duas vezes. Ela não faz nada no palco. Ela senta e as vezes toca uma pequena caixa de música ou alguns sinos. Então ela toca sua Viola de Gamba um pouco. Aí ela senta e faz silêncio por mais um tempo. É completamente hipnotizante, você não pode perder.

Autor: Marçal Righi

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8 Comentários so far
Deixe um comentário

Adorei a entrevista, mas queria ver a foto que não aparece (a da legenda “Owen Pallett em São Paulo. Sim, estávamos sentados no palco.”)!

Comentário por Raquel Penna

2 votos ^

Comentário por Henrique Amorim

3^

Comentário por Lucca Barbéro

é um video, nem percebi que nao foi. vou consertar

Comentário por marçal

pronto, tá lá o vídeo.

Comentário por marçal

O show foi perfeito! *-*
E ainda fiquei a meio metro do Owen! Não poderia ter sido melhor!

Adorei a entrevista! :D

Comentário por Natália

o cara é doido! gosto de doidos! vou baixar o álbum!

Comentário por Xi

”Falando do “Estado”, eu não acredito que você brasileiros votam por mensagens de texto! O que acontece com as pessoas que não têm celular? É muito estranho e pós-moderno, amei. Vou votar em alguém antes de ir embora.” M
HEIN? 8DDD

Comentário por Laisa




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