Move That Jukebox!


Summercase 2008 by Neto

Summercase – Parc del Fòrum, Barcelona, 18 e 19 de Julho 2008.

Multidão no Summercase

Diante de tantas ofertas no cardápio de festivais europeus, chegamos sem muito barulho e marcamos presença num destes festivais, o Summercase (Sinnamon Promotions), que em sua terceira edição já pode confirmar seu posto como um dos festivais mais celebrados e disputados do mercado. O Summercase ofereceu uma quantidade de artistas mais reduzida do que outros festivais, porém com muita qualidade e bom gosto. Uma pena que por coincidir em datas com um festival de mais tradição na praça, o FIB Heineken, tenha feito com que o público ficasse dividido entre atrações de parte à parte.

Com artistas e público mais seletos, este festival acontece de forma simultânea nas duas principais cidades espanholas, Madrid e Barcelona. Sempre em uma Sexta-feira e Sábado, o line-up de Sexta em Barcelona é o de Sábado em Madrid e vice-versa. Apesar dos contratempos e da série de exigências que parte da imprensa tem que cumprir para aceder ao festival, de uma coisa não se pode reclamar ou colocar defeitos: tudo era muito bem organizado.

Haviam três palcos e uma lona para as apresentações. Nos palcos Movistar e Walkman, se apresentavam os grandes nomes. No palco Converse, alguns DJs, experimentalismos e emergentes da cena pop/rock/indie. Na lona Levi’s rolavam muitos DJs e apresentações de bandas locais e, vale citar, estava sempre lotada, talvez pelo fato de ter as tais bandas locais, é claro. Em stands de patrocinadores tinha diversão para todos, lançamentos do Guitar Hero, simuladores de bateria e, num outro stand Levi’s que fazia fotomontagems, qualquer um podia participar da publicidade dos novos 501, sair com a foto revelada na hora e, é claro, o que não poderia faltar: um cabeleireiro para fazer os penteados mais loucos e exclusivos para o público curtir o festival no estilo.

1º Dia – Sexta-Feira 18/07

Apesar do dia ter começado cedo para muitos, as 16:45 com Easy Snap no palco Converse, seguido de outros bons nomes como El Guisante Mágico e We Are Scientists, foi somente no show do Ian Brown que começamos dar forma a nossa cobertura. Mesmo o pequeno atraso, coisa não habitual por aqui, não tirou o ânimo do fiel público que se aglomerou diante do palco Movistar para cantar e dançar ao som do ex-líder do The Stone Roses, que para surpresa geral, não abriu seu set com a habitual I Wanna Be Adored (do álbum homônimo de 89′), que se tornou hino na época, mas sim com a morna The Sweet Fantastic, do Solarized (2004). Ainda figuraram no setlist do mítico vocalista Sister Rose o último trabalho The World is Yours (2007), F.E.A.R do Music of Spheres (2001), entre outras. Já para o final de sua apresentação, recebeu a participação mais do que especial de Gary Mounfield, atual baixista do Primal Scream e que foi membro original, junto ao próprio Ian, do já citado The Stone Roses. Não poderia sair nada mais do que uma seqüência para relembrar velhos tempos com Elephant Stone, Waterfall, Made of Stone e I am Ressurrection, todas do primeiro disco daquela que foi banda ícone da geração Madchester. Fim de apresentação e saldo positivo deste artista, que a cada dia vem polindo seu novo formato de música, assim como fez na década de noventa.

Um pausa para um respiro até a entrada do Grinderman. Liderado pelo eterno mal-humorado Nick Cave, acompanhado de alguns membros de sua banda atual: os Bad Seeds e ainda ex-integrantes do The Cramps. Um projeto paralelo que vem dando certo, algo no formato garage-punk-blues muito barulhento. Uma diversidade de instrumentos no palco, todos tocando vários ao mesmo tempo, o próprio Cave se desdobrando entre piano e guitarra, além de sua grave e inconfundível voz. Abriram com Get it On, simplesmente destruidor, ainda que passassem pela lista músicas como Love Bomb e Go Tell the Women, todas do seu único e homônimo disco Grinderman (2007). Excelente.

Apesar de não ser conhecida por seu mau humor (como Nick Cave) ou exigências extrapolantes, Debbie Harry e sua banda Blondie, que se apresentou no palco Walkman pouco depois do Grinderman, fez uma exigência com relação a imprensa. Não deixou os fotógrafos se aproximarem do palco, ou seja, trabalhar na área reservada – então, quem quisesse captar imagens do show que fotografasse do meio do público e conseguisse o melhor ângulo. As más línguas diziam que era para esconder a idade. Independente do ano de nascimento de Debbie, abrir um show com Hanging on the Telephone, cover do The Nerves, foi para deixar qualquer um satisfeito e esquecer tais exigências. Em seguida, com One Way or Another – do álbum Parallel Lines (1978), mesmo álbum que contém o cover citado -, foi tirada a prova de que, apesar dos anos, a voz de Debby continua tão em forma quanto a própria, que portava um vestido justo e exibia uma silhueta bem atraente para uma senhora. O fundo de palco também fazia referência à capa do álbum de 78. Mesmo sendo esta turnê a comemoração dos 30 anos do mesmo, não faltaram os clássicos mais pops como The Tide is High do álbum Autoamerican (1980) e Union City Blue do Eat to the Beat (1979). O show estava lotado e, com certeza, foi um dos mais celebrados e cantados da noite, principalmente em Maria, lançada em 99′ no No Exit, disco este que marcou o retorno da banda depois de um hiato de 17 anos.

Debbie Harry, vocalista do Blondie

No palco Movistar, exatamente as 22:30hs, figuraram os novaiorquinos do Interpol, cumprindo as expectativas de seu público com seu já manjado setlist, que vem sendo executado na turnê do terceiro e último álbum Our Love to Admire (e que inclusive foi tocada no show dos caras no Brasil). Abriram, como da forma habitual, com Pionner to the Falls. Sempre com pouca iluminação de palco – como todos já sabemos – e com aquela postura fria que logo foi quebrada na segunda música. Quando se deu a introdução de Slow Hands, uma parte da bateria se soltou e foram obrigados a interromper a apresentação por alguns minutos, quando Paul Banks – em um bom castelhano – quebrou o gelo com “Agora todos já sabem qual música será tocada”. Em um show de 70 minutos, coube ao Interpol fazer uma seleção do que eles tem de melhor, se é que eles possuem algo de ruim. Lá estavam, C’Mere, Narc, Evil e Take You On a Cruise do álbum Antics (2004), No I in Threesome, Mammoth, Rest My Chemestry e The Lighthouse do último trabalho e PDA, Obstacle 1 e ainda Say Helo to the Angels do primeiro álbum Turn on the Bright Lights (2002). Antes de terminar a apresentação, Banks deu provas de que seu castelhlano apresentado pouco antes, quando disse (também em castelhano:”Não tinha reparado que de frente a nossos olhos e atrás de vocês está o mar, que privilégio estar tocando em um lugar assim”, agradeceu e saíram do palco ovacionados.

Muito bem encaixado entre as apresentações principais da noite estavam os britânicos do Maximo Park. Originários de New Castle, esta banda vem conquistando seu espaço com tamanha velocidade. Vale citar que, há um ano atrás, em outro festival, tocaram em uma lona onde só cabia a banda e o público se acotovelou para vê-los. De lá pra cá um par de apresentações mais e um segundo disco já foram o suficiente para fazê-los ainda maiores a ponto de estarem no palco Walkman, após o Interpol e precedendo o The Verve, fazendo com que o público tivesse tempo de curtir o show. Destaque absoluto para o vocalista Paul Smith, que por aqui já foi comparado ao Mick Jagger com sua performance de palco. Muito simpático, comunicativo e agitado como suas músicas. O primeiro álbum, A Certain Trigger, é bem garage-rock e o segundo, Our Earthly Pleasures, veio um pouco mais elaborado. Graffiti e Going Missing do primeiro trabalho, Books from Boxes, Parisian Skies e Our Velocity do segundo fizeram a alegria dos presentes e confirmou a banda no merecido posto de uma das mais aplaudidas do festival.

Depois de anos de espera e a esperança de que talvez não pudéssemos mais vê-los tocando ao vivo, tinha chegado o momento mais esperado da noite e para muitos presentes, dos últimos meses desde o anúncio de sua reunião no final de 2007. A princípio Richard Ashcroft (voz), Simon Jones (baixo), Nick McCabe (guitarra) e Peter Salisbury (bateria) se reuniriam somente para 3 noites na Inglaterra e nada mais. Parece que deu certo e decidiram então colocar o The Verve na estrada novamente e já anunciaram novo trabalho ainda para este ano. De momento o que mais importa não é a notícia do novo trabalho e sim vê-los apresentando suas aclamadas músicas. Com uma introdução ao estilo folk e uma excelente iluminação do palco Movistar, o público delirou ao ver Ashcroft entrar em cena bem a seu estilo, óculos escuros, jaqueta de couro, cabelos desarrumados e anunciar gritando This is Music do segundo álbum A Nothern Soul (1995). Daí em diante foi uma seqüência inesquecível como Slide Away do álbum Storm In Heaven (1993), A New Decade do já citado segundo álbum e é claro muitas músicas do aclamadíssimo Urban Hymns (1997), como The Drugs Don`t Wok, Weeping Willo, Lucky Man, Sonnet e Bittersweet Symphony. Era visível a emoção nos olhos de seus fãs que cantavam cada palavra de suas letras. Terminando a apresentação com Love is Noise, novo single que é claro estará no trabalho a ser lançado este ano e se chamará Forth.

2º Dia – Sábado 19/07.

Apesar de muitos terem apontado o primeiro dia como o melhor, por conter bandas com mais nome no mercado, o Sábado e segundo dia não ficou para trás. Com a presença de muitas bandas novas e emergentes na cena pop/indie atual, alguns nomes já conhecidos do grande público e até a presença [mais uma] da velha-guarda, o segundo e último dia também veio forte.

O dia começou com a sadia batalha entre The Kooks e Shout Out Louds. De um lado os jovens britânicos se apresentavam no palco Movistar e ainda durante a apresentação dos mesmos os suecos do Shout Out Louds também iniciavam seus trabalhos no palco Converse. O público ficou um pouco dividido mas com certeza ninguém saiu decepcionado. O The Kooks agradaram os mais pops com Ooh La e She Moves in Her Own Way do disco Inside In/Inside Out (2006) e apesar de estarem lançando o também bom Konk (2008) as músicas do primeiro emplacaram mais. Já no Converse os suecos apresentaram toda sua mistura de melancolia e positividade que figuram em seus dois álbuns Howl Howl Gaff Gaff (2005) e Our Ill Wills (2007) com temas como Please Please Please e Hurry Up Let’s Go do primeiro, Hard Rain, You Are Dreaming e Shut Your Eyes do segundo foram algumas que agradaram em cheio. Em entrevista recente que tive oportunidade de fazer com o baterista Eric, ele se disse muito interessado em um dia poder tocar no Brasil e parece que ao que tudo indica a banda está mais próxima do que nunca de nosso lindo país, olho neles porque são maravilhosos.

Retornando ao palco Movistar já estava em sua apresentação o The Breeders, apresentando todo lado alternativo que ainda corre nas veias de Kim Deal. Um show morno que teve ponto alto na esperada Cannonball do álbum Last Splash (1993). No Walkman, The Stranglers também fazia uma apresentação de respeito deixando velhos fãs com um largo sorriso em suas caras.

Ainda sob a luz do dia veio a primeira “grande” banda do Sábado, o Kings of Leon e seu rock and roll da roça. Utilizando No Quarter do Led Zeppelin como introdução, o quarteto entra em cena e, é claro, não decepcionou em nenhum momento. Misturando músicas dos seus três álbuns, tocaram Wasted Time, Molly`s Chambers do álbum Youth & Manhood (2003) (esta segunda em versão mais lenta do que a de estúdio). Pistol of Fire e King of the Rodeo do Aha Shake Heartbreak (2005) e do trabalho mais recente que veio mais limpo e progressivo Because of the Times (2007) tocaram, entre outras, Charmer e On Call. Apesar da mudança visual e do último trabalho também apresentar diferenças, já anunciaram que vêm trabalhando em um novo disco e que voltarão as raízes.

Descendo para o palco Walkman era a hora de conferir Mogwai e seu estilo shoegaze, que aliás vale citar, assim como o post-punk teve seu revival com bandas como Interpol e Editors por exemplo, o shoegaze vem ganhando força novamente e principalmente depois da reaparição do My Bloody Valantine em palcos. O Mogwai apresentou em exclusividade para o Summercase o álbum Young Team (1997) tocado na integra, tudo isso em comemoração de uma década de lançamento deste aclamado disco que teve relançamento recente, com músicas bonus e apresentações ao vivo da época. Para quem conhece o disco é até desnecessário comentar as músicas: foi a mesma sequência só que ao vivo, viagem total.

Marcado para as 23:20, os Sex Pistols adiantaram sua apresentação em 10 minutos, menos mal já que a organização anunciou nos quatro cantos do Recinto Fòrum e nos telões que tal fato iria acontecer. Fazendo parte das estranhas exigências, John Lydon, Steve Jones, Glen Matlock e Paul Cook também fizeram uma pré-seleção dos fotógrafos que iriam ficar na linha de frente, ou seja, mesmo sendo credenciado ainda existiam os credenciados dos credenciados, algo raro para uma banda punk. Com quilos à mais e vestido com uma roupa que mais parecia um pé-grande, Lydon provou que ainda tem sarcasmo o suficiente para liderar os Pistols. Bem mesmo estava Jones, de bermudas e camiseta velha como se tivesse chegado da padaria, ou melhor, de um boteco, bem à vontade e se livrando do calor que fazia naquela noite. Liar, Problems, God Save The Queen, Anarchy in the U.K., todas do Never Mind the Bollocks Here’s the Sex Pistols (1977), marcaram presença para delírio dos britânicos que invadiram Barcelona para vê-los cantando No Fun, No Fun, era demais. Pouco mais de uma hora de show foi o suficiente para provar que as pistolas sexuais continuam atirando por aí. Uma observação válida: muitos jovens presentes ficaram impressionados ao ver pelo telão Lydon sem alguns dentes – essa rapaziada indie ainda tem muito punk para aprender.

Em seguida aos Pistols, porém no palco Walkman, tinha chegado a hora de conferir de perto a badalada banda brasileira Cansei de Ser Sexy (oficialmente CSS agora). Capa de várias revistas na Europa e considerados um fenômeno musical, os brasileiros não decepcionaram. Com uma decoração de palco bem colorida, balões de festa espalhados e músicas como Off the Hook, Alala e Patins do álbum de estréia homônimo, demonstraram seu lado indie/pop/rock/eletrônico e roubaram a cena da noite em definitivo, fazendo o local virar uma pista de dança e lotar as arquibancadas. Atualmente lançando o Donkey, deixaram escapar que estariam em Barcelona gravando um novo video clipe no dia após o show. Muito seguros no palco e tentando falar em espanhol, mesmo que não tão bem, o público entendia perfeitamente e aplaudia o esforço e a aquelas alturas, quando já valia tudo, conquistaram tal feedback que não era qualquer erro de gramática que esfriaria a galera. Destaque total para a vocalista Lovefoxxx com seus modelitos ousados arrancava gritos de gostosa da fila do gargarejo.

O Kaiser Chief Ricky Wilson

Mesmo tendo se apresentado na edição passada do festival, o Kaiser Chiefs participou do capítulo que vale a pena ver de novo e demonstraram toda sua força. Seu animado vocalista Ricky Wilson começou a apresentação da forma mais inusitada possível. Chegou pedindo que o público gritasse o nome de sua banda quando perguntava, “vocês sabem quem somos?”, uma vez que o volume da resposta tinha sido suficientemente alto e, antes de qualquer coisa, desceu ao fosso que separa o palco da platéia para abrir a noite com Everything is Average Nowadays dando início a festa, enquanto tigres infláveis voavam do público em sua direção – já dá para imaginar que mais parecia uma festa do que um show de rock. Deste segundo álbum também apresentaram The Angry Mob e o hit Ruby, mas a festa aconteceu mesmo quando Na Na Na Na Naa, Eveyday I Love You Less and Less e o super-hit I Predict a Riot do Employment apareceram. Como de costume, a apresentação se encerrou com Wilson escalando as estruturas do palco. Uma outra observação, também no fim do show, sem ser anunciado, Kele Orekele (vocalista do Bloc Party) tocava uma percussão de maneira bem discreta ao fundo do palco. A passagem deste simpático vocalista teria sido mais do que discreta se ele não tivesse se envolvido em uma confusão no backstage com John Lydon (Sex Pistols). Dizem que a confusão começou por parte dos Pistols.

Seguindo na noite de Sábado, mas já entrando pela madrugada de Domingo, sobem ao Walkman os britânicos do Foals com sua mistura de Techno/Rock ou Math/Rock e fizeram uma apresentação brilhante, principalmente nas músicas Cassius, The French Open e Balloons, todas do seu único disco Antidotes, lançados agora em 2008. Continuando nesse rítimo, essa banda promete dar o que falar, principalmente porque seu estilo musical vem ganhando muita força aqui na Europa, junto de bandas como Minus the Bear, por exemplo.

Para finalizar a noite os escolhidos foram Los Planetas, uma banda com bastante força local. Com um setlist cantado em castelhano, levou muita gente diante ao palco Movistar. As 3 da manhã de Domingo muito parecia um concerto às 9 da noite, tamanha era a empolgação de seus fãs. Muito interessante e um bom exemplo de que apesar de grandes nomes internacionais, quem fechou a noite em grande estilo e prestigiado pelo público foi uma banda nacional, coisa que em nosso país raramente se vê. Que sirva de exemplo.

Texto e fotos: Mauricio Melo

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